Na anamnese completa, o que perguntar em cada etapa é a dúvida de quem quer um roteiro confiável sem transformar a consulta em interrogatório. Este artigo reúne as perguntas por etapa, da queixa principal aos hábitos, com exemplos de formulação que você pode adaptar ao seu estilo e à sua especialidade. O conteúdo é geral e não substitui diretrizes nem o seu julgamento clínico.
Como usar este roteiro
Não faça todas as perguntas em todas as consultas. Use as etapas como lista de verificação: na primeira consulta, percorra quase tudo; no retorno, vá direto para evolução, adesão e novidades. A ordem abaixo costuma funcionar bem porque começa pelo que importa ao paciente e termina no que complementa o quadro.
1. Queixa principal
Deixe o paciente começar pelas palavras dele.
- “O que traz o senhor hoje?”
- “Qual é o principal incômodo neste momento?”
- “Se pudesse resolver uma coisa hoje, qual seria?”
Anote em uma linha, com a duração. Se houver vários motivos, peça que ele os ordene por importância.
2. História da doença atual
Aqui está o coração da anamnese. Para cada sintoma relevante, explore:
- Início: “Quando começou? Foi de repente ou aos poucos?”
- Evolução: “Desde então, piorou, melhorou ou ficou igual?”
- Características: “Como o senhor descreveria essa sensação?”
- Localização: “Onde sente? Vai para algum outro lugar?”
- Intensidade e impacto: “Atrapalha o sono, o trabalho, as atividades do dia?”
- Fatores desencadeantes: “Aparece depois de algo específico, como esforço, refeição ou estresse?”
- Fatores de melhora e piora: “O que alivia? O que piora?”
- Sintomas associados: “Junto disso, aconteceu mais alguma coisa?”
- Episódios anteriores: “Já teve algo parecido antes?”
- Tratamentos tentados: “O que já usou e como respondeu?”
3. Interrogatório sobre os diversos aparelhos
Depois do relato principal, uma varredura rápida ajuda a captar queixas que o paciente não ligou ao problema. Pergunte de forma ampla: “Fora isso, notou alguma mudança no sono, apetite, peso, intestino, urina, respiração, pele ou humor?” Aprofunde apenas onde houver resposta positiva.
4. Antecedentes pessoais
- “Tem alguma doença diagnosticada, como pressão alta, diabetes ou outra?”
- “Já passou por cirurgia? Já foi internado?”
- “Já teve reação a algum medicamento?”
- “Como está a vacinação?”
- Para mulheres, quando pertinente à especialidade: ciclo menstrual, gestações, partos, métodos contraceptivos.
5. Antecedentes familiares
- “Alguém na família tem ou teve doenças como diabetes, pressão alta, problemas do coração, câncer ou doenças de tireoide?”
- “Alguma dessas doenças apareceu cedo, antes dos 50 anos, por exemplo?”
Concentre-se em parentes de primeiro grau. A idade em que a doença apareceu costuma ser mais informativa que a doença em si.
6. Medicações e alergias
Esta etapa nunca deve ficar para depois.
- “Quais remédios o senhor toma, com dose e horário?”
- “Usa algo sem receita, como analgésico, anti-inflamatório ou antiácido?”
- “Toma vitaminas, suplementos ou chás medicinais?”
- “Tem alergia a algum medicamento, alimento ou outro produto?”
- “Está tomando os remédios como foram prescritos?”
Se o paciente não souber os nomes, peça que traga as caixas ou uma foto delas na próxima consulta.
7. Hábitos e estilo de vida
Pergunte sem julgamento, para obter respostas honestas.
- Alimentação: “Como costuma ser um dia de refeições?”
- Atividade física: “Que tipo de atividade faz e com que frequência?”
- Sono: “Quantas horas dorme? Acorda descansado?”
- Álcool e tabaco: “Fuma? Costuma beber? Com que frequência?”
- Outras substâncias: “Já usou ou usa alguma outra substância?”
8. Contexto social e ocupacional
- “Qual é o seu trabalho e como é a rotina?”
- “Com quem mora?”
- “Tem alguém que ajude nos cuidados, se precisar?”
- “Como estão as coisas em casa e no trabalho ultimamente?”
Esse bloco explica adesão, estresse, exposições ocupacionais e viabilidade de qualquer plano de tratamento.
9. Expectativas e preocupações
Muitas consultas fracassam porque o médico respondeu a uma pergunta que o paciente não fez.
- “O que mais o preocupa nisso?”
- “O que o senhor espera desta consulta?”
- “Tem alguma dúvida que gostaria de resolver hoje?”
10. Fechamento da anamnese
Resuma em voz alta o que entendeu e pergunte: “Ficou faltando algo que o senhor ache importante?” Em seguida, passe ao exame físico.
Perguntas de alerta que valem em qualquer consulta
Independentemente da especialidade, algumas perguntas ajudam a identificar sinais que pedem atenção prioritária: emagrecimento sem explicação, febre prolongada, dor de início súbito e muito intensa, sangramentos, mudança neurológica recente, falta de ar progressiva e piora importante do estado geral. A interpretação e a conduta diante desses sinais seguem as diretrizes da sua área e o seu julgamento.
Perguntas que ajudam a esclarecer respostas vagas
Nem sempre o paciente responde de forma útil na primeira tentativa. Algumas formulações ajudam a tornar a resposta concreta:
- Quando o paciente diz “sempre fui assim”: “Desde quando o senhor lembra? Mudou alguma coisa recentemente?”
- Quando diz “tomo uns remédios para pressão”: “Pode me dizer o nome ou trazer a caixa na próxima vez?”
- Quando diz “é uma dor forte”: “De zero a dez, qual nota o senhor daria? E o que ela impede de fazer?”
- Quando diz “às vezes”: “Quantas vezes por semana, mais ou menos?”
- Quando diz “não é nada”: “Mesmo assim, o que o senhor notou?”
Essas perguntas transformam impressões em dados registráveis, sem soar como cobrança.
Como não transformar o roteiro em interrogatório
- Comece sempre pelo relato livre do paciente.
- Faça uma pergunta por vez e espere a resposta completa.
- Explique quando mudar de assunto: “Agora vou perguntar sobre sua rotina, para entender melhor o quadro.”
- Use o roteiro como apoio, não como formulário a ser lido.
- Registre o que foi dito, mesmo quando for informação negativa relevante, como “nega alergias”.
Registrar uma anamnese completa sem sacrificar a conversa
O desafio de uma anamnese completa é registrar tanta informação sem desviar o olhar do paciente. A transcrição ajuda: você conduz a conversa seguindo o roteiro, e o texto é organizado depois.
No Integrativ.ai, a IA transcreve a consulta em tempo real e organiza a anamnese nos campos do modelo escolhido, como clínica geral, retorno, pediatria ou um modelo próprio com as etapas acima. Você revisa, completa o exame físico e a conduta, e salva na ficha do paciente, onde as anamneses ficam por data, junto com os exames e o assistente que responde com referências numeradas de fontes científicas.
Os dados seguem a LGPD e ficam criptografados, visíveis apenas para o médico que cadastrou o paciente. O plano Profissional custa R$ 147 por mês ou R$ 948 por ano (12x de R$ 79), com tudo ilimitado. Você pode fazer o teste grátis de 7 dias com consultas reais.
Perguntas frequentes
O que não pode faltar em uma anamnese completa?
Queixa principal com duração, história da doença atual, antecedentes relevantes, medicações em uso, alergias e hábitos. Medicações e alergias são os itens mais perigosos de esquecer.
Preciso fazer todas as perguntas em todos os retornos?
Não. No retorno, concentre-se em evolução, adesão ao tratamento, efeitos adversos, resultados de exames e novidades desde o último contato.
Qual a melhor ordem para fazer as perguntas?
Comece pela queixa e pelo relato livre, siga para a história da doença atual, antecedentes, medicações, hábitos e contexto, e feche com as preocupações do paciente.
Como lidar com o paciente que não sabe responder?
Use perguntas mais concretas, peça que traga caixas de remédios e exames anteriores, e, quando houver, confirme informações com o acompanhante.